Somente o que é Necessário

Aser atravessa os Grandes Desertos em uma jornada descobrindo que milagres acontecem quando mais precisamos deles.

FICÇÃO CRISTÃ

Antonio Marcos dos Santos

11/3/20267 min read

Era um dia de calor intenso. Os próprios transeuntes aconselhavam que ninguém deixasse as tribos para atravessar os Grandes Desertos. O sol castigava a terra sem piedade e, se alguém fosse surpreendido ao relento durante as horas mais quentes do dia, dificilmente escaparia sem grandes dificuldades.

— Ei, menino! Onde pensa que está indo? — gritou um velho feirante enquanto organizava suas verduras. — Você não sabe que a passagem está proibida? Ninguém deveria sair da tribo hoje, e quem sair terá de se virar sozinho. Até um homem experiente sofreria para atravessar esse calor... imagine um garoto como você. Onde estão seus pais?

O rapaz olhou para os lados, como quem procurasse outra criança por perto. Não encontrando ninguém além de si mesmo, voltou-se para o velho e perguntou com toda a educação:

— Meu senhor... por acaso está falando comigo?

— Pois eu não vejo mais nenhuma criança querendo sair da tribo. Claro que estou falando com você! — respondeu o ancião, já bastante impaciente.

Naquele instante o suposto garoto abriu um largo sorriso e começou a rir. O velho sentiu o rosto esquentar ainda mais, certo de que estavam zombando dele, mas antes que pudesse aumentar o tom de voz, o rapaz respondeu calmamente:

— Meu senhor, fico muito agradecido pelo cuidado... e também por achar que ainda sou um jovem. Mas, na verdade, já completei trinta anos. Claro que, para um ancião tão experiente quanto o senhor, continuo sendo apenas um rapaz, e sou grato pela preocupação. Ainda assim, preciso seguir viagem. Tenho alguns negócios a tratar nos Grandes Desertos.

A mudança no semblante do velho foi quase imediata. O homem que há poucos instantes falava aos gritos agora parecia envergonhado da própria atitude. Era como diziam os antigos: uma resposta branda era capaz de acalmar até o mais irado dos corações.

— Ora... perdoe-me, meu senhor. Estes olhos já não são os mesmos de antigamente. Aceite estas verduras como um pedido de desculpas. E, sempre que passar por esta tribo, lembre-se de visitar este velho.

Aser sorriu novamente.

— Agradeço de coração, mas não precisa se preocupar comigo. Tenho certeza de que voltarei outras vezes. Guarde suas verduras, elas certamente encontrarão alguém que precise mais delas do que eu.

Mas o velho insistiu. Insistiu outra vez e depois mais uma, até que a recusa de Aser parecia estar dando mais trabalho do que simplesmente aceitar o presente. No fim, os dois acabaram rindo da situação.

O velho começou a perguntar de onde ele vinha, para onde ia e se costumava viajar sozinho. Aser respondeu cada pergunta com paciência, como se não tivesse pressa alguma. Perguntou também pela saúde do ancião, pela colheita daquele ano e ouviu algumas histórias de quando aquela tribo ainda era pequena. O velho parecia contente simplesmente por ter alguém disposto a escutá-lo.

Só depois de algum tempo Aser percebeu quanto havia permanecido ali.

"Ah...", pensou consigo. "Agora realmente estou atrasado."

Por fim, pegou as verduras, agradeceu mais uma vez e seguiu seu caminho. Enquanto caminhava, sorriu sozinho.

— É... da próxima vez talvez seja melhor aceitar logo o presente.

Aquele pequeno diálogo lhe custara quase meia hora. Pontualidade nunca fora seu ponto forte. Curiosamente, porém, quase sempre acabava chegando exatamente onde precisava estar. Era uma contradição da qual ele mesmo costumava rir.

Aser era um homem de aparência gentil. Apesar da baixa estatura e do corpo franzino, atravessara os Grandes Desertos incontáveis vezes. Alguns diziam, em tom de brincadeira, que ele conhecia melhor os desertos do que qualquer aldeia. E talvez fosse verdade.

Onde quer que passasse, acabava fazendo amigos. Cumprimentava a todos pelo nome quando podia, trabalhava sem reclamar, nunca enganava ninguém numa negociação e parecia encontrar motivos para sorrir até nos dias mais difíceis. Havia pessoas assim. Não eram as mais fortes nem as mais importantes, mas deixavam os lugares um pouco mais leves só com sua presença.

Naquele dia, entretanto, estava realmente atrasado. Precisava chegar à Vila da Compaixão, construída às margens do Mar Leste. Uma travessia continental a pé exigiria semanas de caminhada, contornando territórios e planejando cada parada, já que viajar à noite pelas estradas abertas tornara-se perigoso sem as rondas da Vontade. A Torre do Sul seria seu abrigo planejado para a primeira noite.

Na bolsa levava um pequeno frasco de elixir e alguns brinquedos de madeira comprados na Tribo dos Filhos.

Enquanto caminhava, lembrava-se do momento em que separou suas moedas sobre o balcão da pequena loja. O dinheiro era curto. Por um instante, chegou a pensar em deixar os brinquedos de lado e levar apenas o elixir, guardando o restante das moedas para os gastos da longa viagem de volta.

Logo sorriu e afastou aquela ideia. "Não", pensou consigo. "Tabita precisa do remédio, mas não posso chegar de mãos vazias para os outros pequeninos." Comprou o elixir e usou todas as moedas que restavam para levar o máximo de brinquedos que pôde, embora soubesse que não daria para comprar um para cada criança da vila. Ao guardar tudo na bolsa, disse baixinho para si mesmo:

— Bem... somente o necessário.

Por algum motivo, sentia que precisava se apressar. Tentou aumentar o passo, mas o calor era impiedoso. Até mesmo para um andarilho acostumado aos desertos, caminhar sob aquele sol parecia um desafio.

As primeiras horas passaram depressa. O caminho era conhecido, e Aser seguia quase sem pensar, assobiando uma canção antiga enquanto o vento quente levantava pequenas nuvens de areia.

Com o passar do tempo, porém, o sol pareceu aproximar-se ainda mais da terra. Cada passo exigia um pouco mais de esforço. O calor fazia o horizonte tremular, como se a própria terra respirasse diante dele. A água em seu cantil diminuía, e as sombras tornavam-se cada vez mais raras.

O sorriso continuava em seu rosto, mas agora era acompanhado por longos suspiros. Parou por um instante para enxugar o suor da testa, olhou para o horizonte e calculou o tempo. A meia hora perdida com o feirante cobrava seu preço: ele não conseguiria alcançar a Torre do Sul antes do anoitecer.

Continuou andando mesmo assim. Uma hora depois fez as contas outra vez. Também não conseguiria voltar. Agora estava exatamente entre um lugar e outro.

Olhou para o céu e riu sozinho. — É... dessa vez eu realmente me atrasei.

Isso era um problema. Com o alistamento recente, as escoltas da Vontade já não faziam rondas noturnas por aquela região. Ficar desprotegido no deserto após o pôr do sol era um risco que poucos encaravam.

Aser suspirou. — Às vezes eu queria entender por que você aparece... Fez uma pausa. — Ou pelo menos que me explicasse por que funciona. Sorriu novamente. — Mas acho que, se eu entendesse… acabaria confiando menos.

E continuou a caminhar. Mas, depois de seguir por mais algum tempo, Aser finalmente aceitou aquilo que já sabia fazia horas. A pé, não chegaria a lugar nenhum seguro naquela noite.

Pensou consigo: "Pelo visto vou precisar passar a noite no relento antes da Torre..."

Subiu uma pequena colina para observar o caminho. Dali era possível enxergar toda a Torre. Ou melhor... aquilo que todos chamavam de torre. Não havia muralhas. Nenhuma tribo a havia construído e, com a tecnologia de seu tempo, dificilmente conseguiriam erguer algo sequer parecido. Talvez nem mesmo a própria Catedral fosse capaz de realizar uma obra daquela magnitude em menos de setenta anos de trabalho contínuo. Na verdade, a Torre não parecia uma construção. Era uma única estrutura colossal fincada na terra desde um tempo que ninguém sabia contar. Com o passar das gerações, casas, escadas, pontes e passarelas foram sendo construídas sobre ela, até que sua forma original deixou de importar. Tornou-se apenas… a Torre do Sul.

Aser sorriu. — Acho que o pessoal da Torre não vai me ver chegar hoje.

Respirou fundo. — Tabita... aguente só mais um pouquinho. Deu mais um passo.

O vento cessou. O calor desapareceu por um instante. Aser piscou os olhos.

Quando tornou a abri-los… Estava diante da Vila da Compaixão.

Olhou para um lado. Ele olhou para trás. O deserto continuava ali, deixado para trás a continentes de distância. Olhou para a vila. Depois para a própria bolsa.

Sorriu. — É... de novo.

Coçou a cabeça. — Eu realmente não faço ideia de como isso funciona.

Mas, pensando bem... Nunca aconteceu antes de ser necessário.

Não teve tempo para pensar mais. Assim que entrou na vila, um grupo de crianças correu em sua direção.

— Tio Aser! Vem depressa! — A Tabita piorou! — Ela está muito quente e com dor!

Aser apertou o passo e entrou na pequena casa onde a menina descansava. Ela estava deitada, o rosto vermelho e a respiração pesada, enquanto seus pequenos amigos permaneciam ao redor da cama sem saber o que fazer.

Sem perder tempo, abriu a bolsa, retirou cuidadosamente o pequeno frasco de elixir e ajudou Tabita a beber seu conteúdo.

As crianças observavam em absoluto silêncio. Esperavam que ela se levantasse imediatamente.

Uma delas perguntou: — Será que ela vai melhorar?

Aser percebeu a expectativa estampada no rosto de cada uma delas e, tentando aliviar a tensão, disse com um sorriso:

— Meus pequeninos... talvez seja melhor deixarmos esta jovenzinha descansar um pouco. Já demos o remédio, e logo ela ficará melhor. Mas não é como se fosse levantar agora da cama para sair correndo por aí com vocês.

Mal terminou de falar, ouviu uma voz conhecida atrás de si.

— Mas quem é que você está chamando de pequenino, tio Aser?

Ele virou devagar. Lá estava Tabita. Em pé. Corada. Com um sorriso enorme no rosto.

— E outra coisa... você tinha prometido trazer brinquedos junto com o elixir. Onde eles estão?

Por alguns instantes Aser apenas olhou para a menina. Depois sorriu daquele jeito tranquilo que sempre sorria quando alguma coisa extraordinária acontecia. Coçou a cabeça. E pensou em voz alta:

— É... eu realmente não sei como isso funciona.

As crianças olharam umas para as outras. — Do que será que o tio Aser está falando?

Ele apenas riu. — Não é nada, crianças. Venham cá, eu trouxe os brinquedos.

Enquanto distribuía os presentes, Aser percebeu que nenhuma criança ficou sem um. Parou por um instante, olhou para dentro da bolsa e depois contou novamente as crianças ao seu redor. Não havia sobrado brinquedo algum, mas também não faltara nenhum.

Apenas balançou a cabeça. — É... somente o necessário.

Então levantou o feixe de verduras que ainda carregava debaixo do braço e perguntou: — Falando nisso... alguém aqui gosta de verduras?