Por que todo cristão faz teologia (e por que isso importa)
Quando você ouve a palavra teologia, o que vem à sua mente?
Talvez uma biblioteca repleta de livros antigos. Professores discutindo palavras em grego e hebraico. Seminários, universidades ou longos debates que parecem não ter qualquer relação com a vida cotidiana.
Para muita gente, teologia pertence a esse mundo. Um universo reservado para pastores, professores e estudiosos. Enquanto isso, o cristão "comum" apenas lê sua Bíblia, ora e procura viver sua fé.
Mas existe um problema nessa maneira de pensar.
Ela simplesmente não corresponde à realidade.
A verdade é que todo cristão faz teologia. Todos os dias.
Quando você afirma que Jesus é Deus, está fazendo teologia.
Quando diz que Deus responde orações, está fazendo teologia.
Quando acredita que a salvação acontece pela graça mediante a fé, está fazendo teologia.
Sempre que respondemos à pergunta "o que Deus diz sobre isso?", estamos fazendo teologia, ainda que nunca tenhamos aberto um livro de sistemática ou frequentado um seminário.
A questão, portanto, nunca foi se você faz teologia.
A verdadeira pergunta é outra.
Você faz boa teologia?
Essa diferença muda tudo.
Porque abandonar a teologia não nos torna mais espirituais. Apenas nos torna menos conscientes daquilo que acreditamos. E quando deixamos de construir nossas convicções a partir das Escrituras, inevitavelmente outra coisa ocupará esse lugar: nossas emoções, a cultura, nossas experiências ou simplesmente a opinião de outras pessoas.
Ignorar a teologia nunca eliminou os erros da igreja.
Na verdade, foi justamente assim que muitos deles começaram.
Afinal, o que é teologia?
A palavra "teologia" significa, literalmente, o estudo de Deus.
Mas essa definição, embora correta, ainda pode parecer distante.
Talvez uma maneira melhor de entendê-la seja esta: teologia é o esforço de compreender tudo o que Deus revelou sobre determinado assunto.
Perceba a diferença.
Não estamos procurando apenas um versículo.
Estamos procurando o ensino das Escrituras.
Imagine que alguém lhe faça uma pergunta aparentemente simples:
O que a Bíblia ensina sobre oração?
Onde você responderia?
No Pai Nosso?
Nos Salmos?
Nas cartas de Paulo?
Na oração de Elias?
Nas palavras de Tiago?
A resposta correta é: em todos eles.
Nenhum desses textos, isoladamente, esgota o assunto. Cada um acrescenta uma peça ao quebra-cabeça.
É exatamente aí que a teologia entra.
Ela não substitui a Bíblia.
Ela organiza aquilo que a Bíblia já ensina.
Como montar um quebra-cabeça
Imagine que alguém despeje sobre uma mesa mil peças de um quebra-cabeça.
Todas pertencem à mesma imagem.
Mas, enquanto permanecem espalhadas, é impossível enxergar o desenho completo.
Ler um único versículo e construir toda uma doutrina a partir dele é como olhar para uma única peça e acreditar que já conhecemos toda a figura.
A teologia existe para conectar essas peças.
Ela pergunta:
"O que Gênesis diz?"
"O que os Salmos acrescentam?"
"O que os profetas revelam?"
"Como Jesus trata esse assunto?"
"O que os apóstolos ensinaram?"
Somente depois de reunir todas essas respostas conseguimos enxergar o quadro inteiro.
É por isso que a boa teologia nunca nasce de um versículo isolado.
Ela nasce da unidade das Escrituras.
O perigo de não perceber que fazemos teologia
Existe uma frase que costuma aparecer com frequência:
"Eu não gosto de teologia. Eu só sigo a Bíblia."
À primeira vista, ela parece demonstrar humildade.
Na prática, porém, ela é impossível.
Porque toda vez que alguém interpreta um texto bíblico, estabelece relações entre passagens e chega a uma conclusão sobre quem Deus é ou como Ele age, essa pessoa já está fazendo teologia.
A diferença é que algumas pessoas fazem isso de maneira consciente.
Outras fazem sem perceber.
E aqui está o verdadeiro perigo.
Quem acredita que não faz teologia geralmente deixa que outra coisa organize seu pensamento.
Às vezes é a tradição.
Às vezes é a cultura.
Às vezes é uma experiência marcante.
Às vezes é simplesmente o pregador favorito da internet.
A ausência de teologia bíblica nunca produz neutralidade.
Produz apenas uma teologia construída por outras vozes.
A igreja não inventou a teologia
Há quem imagine que a teologia seja uma criação posterior da igreja, como se os primeiros cristãos simplesmente lessem a Bíblia e, séculos depois, estudiosos tivessem complicado tudo.
A história mostra justamente o contrário.
Desde os primeiros séculos, a igreja precisou responder perguntas fundamentais: Quem é Jesus? O Espírito Santo é Deus? Como a salvação acontece? O que significa a graça?
Essas respostas não foram inventadas.
Foram organizadas a partir das Escrituras para proteger a igreja contra interpretações equivocadas.
Os credos e as confissões não criaram novas verdades. Procuraram resumir as verdades que a própria Bíblia já ensinava.
A teologia sempre foi serva das Escrituras, nunca sua substituta.
Quem está moldando sua teologia?
Talvez essa seja a pergunta mais importante de todas.
Não é se você possui uma teologia.
Você possui.
Todos possuem.
A questão é outra.
Quem está moldando essa teologia?
As redes sociais?
As emoções?
A cultura?
As tradições familiares?
Ou a Palavra de Deus?
Nossa mente nunca permanece vazia por muito tempo. Se ela não for preenchida pela verdade, será preenchida por alguma outra narrativa.
Foi por isso que Paulo exortou Timóteo a manejar corretamente a Palavra da verdade (2Tm 2.15). Conhecer a Deus corretamente nunca foi um luxo reservado aos estudiosos. Sempre foi uma necessidade para a igreja.
Conhecer a Deus é um ato de adoração
Existe uma ideia bastante difundida de que estudar teologia torna as pessoas frias.
Como se conhecer mais sobre Deus diminuísse o amor por Ele.
As Escrituras apontam na direção oposta.
Quanto mais conhecemos quem Deus é, mais percebemos Sua santidade, Sua graça, Sua justiça e Sua misericórdia. E quanto mais contemplamos essas verdades, mais nossa adoração deixa de ser construída sobre sentimentos passageiros para descansar no caráter imutável de Deus.
A teologia não existe para produzir pessoas que sabem mais.
Ela existe para formar pessoas que conhecem melhor aquele a quem adoram.
Porque, no fim das contas, toda boa teologia termina onde sempre deveria terminar: em Cristo.
Foi Ele quem disse que a vida eterna consiste em conhecer o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo, a quem Ele enviou (João 17.3).
Conhecer a verdade nunca foi apenas um exercício intelectual.
Sempre foi um caminho de adoração.


