O que Jesus vê quando olha para a sua igreja? As sete cartas do Apocalipse
Nas sete cartas do Apocalipse, Cristo revela as falhas e virtudes de sua igreja, chamando seu povo ao arrependimento, à fidelidade e à esperança.
BÍBLIA
Antonio Marcos dos Santos
11/4/202617 min read


As sete igrejas do Apocalipse: Cristo conhece a sua igreja
Quando lemos as cartas que Jesus dirige às sete igrejas da Ásia, encontramos uma das passagens mais preciosas e, ao mesmo tempo, mais confrontadoras de todo o livro de Apocalipse. Nelas, vemos comunidades que perseveram em meio à perseguição, igrejas que abandonaram seu primeiro amor, outras que se acomodaram ao pecado e até mesmo uma comunidade convencida de que não precisava de coisa alguma. Apesar das diferenças entre essas igrejas, uma verdade permanece constante: Cristo conhece profundamente o seu povo.
As cartas, registradas nos capítulos 2 e 3 de Apocalipse, foram dirigidas a comunidades cristãs reais, situadas em cidades da Ásia Menor, região que hoje corresponde, em grande parte, à Turquia. Elas viviam em contextos culturais, políticos e religiosos diferentes dos nossos, mas enfrentavam questões que continuam presentes na vida da igreja contemporânea. Por isso, não devemos lê-las apenas como registros históricos de comunidades que existiram no primeiro século. Essas cartas fazem parte da revelação de Jesus Cristo à sua igreja e continuam nos ensinando sobre fidelidade, santidade, perseverança, arrependimento e esperança.
A imagem que abre essa seção é especialmente significativa. João vê Cristo caminhando no meio dos candeeiros de ouro, que representam as igrejas. O Senhor não está distante de seu povo. Ele está presente, conhece suas obras, examina sua condição e exerce autoridade sobre ela. A igreja não pertence a si mesma, mas àquele que a comprou com seu próprio sangue.
Ao longo das sete cartas, Cristo elogia, consola, adverte e repreende. Em algumas comunidades, reconhece a perseverança; em outras, denuncia pecados que precisam ser abandonados. Mas até mesmo suas repreensões revelam o cuidado daquele que ama seu povo e deseja conduzi-lo à fidelidade. É a partir dessa presença de Cristo que devemos compreender tanto as advertências quanto as promessas dirigidas às igrejas.
Quando a verdade é preservada, mas o amor se enfraquece
A primeira carta é dirigida à igreja em Éfeso. A cidade era importante na Ásia romana, conhecida por seu movimentado porto, sua influência comercial e pela presença do templo dedicado à deusa Ártemis. Em meio a esse ambiente de idolatria, a igreja havia se tornado uma comunidade dedicada à obra do Senhor. Seus membros perseveravam, rejeitavam falsos mestres e demonstravam discernimento diante daqueles que tentavam corromper a verdade do evangelho.
Cristo se apresenta como aquele que conserva as sete estrelas e caminha entre os candeeiros de ouro. A imagem revela que Jesus sustenta, governa e conhece sua igreja. Entretanto, apesar das virtudes daquela comunidade, havia algo essencial que precisava ser corrigido: ela havia abandonado seu primeiro amor.
Éfeso continuava trabalhando, perseverando e defendendo a verdade, mas havia perdido algo fundamental em sua caminhada. O problema não era a ausência de atividade religiosa, e sim o abandono do amor que deveria sustentar todas as suas obras. O texto não nos permite reduzir esse primeiro amor a uma única dimensão. O amor por Cristo e o amor pelos irmãos estão profundamente relacionados, pois aquele que ama verdadeiramente o Senhor é chamado a amar também aqueles que pertencem a Ele.
A solução apresentada por Jesus não era simplesmente criar novas atividades, realizar campanhas ou desenvolver estratégias para tornar a igreja mais eficiente. Cristo ordena que ela se lembre de onde caiu, se arrependa e volte à prática das primeiras obras. Caso contrário, seu candeeiro seria removido.
Essa advertência nos ensina que uma igreja pode preservar sua ortodoxia, manter suas atividades e até ser reconhecida por sua fidelidade doutrinária, mas ainda assim precisar de arrependimento. A verdade que confessamos deve produzir amor por Deus e pelo próximo. Não basta defender a fé se nosso coração se torna indiferente àquele que nos chamou.
Cristo, porém, não termina sua mensagem com uma advertência. Ao vencedor, promete o direito de comer da árvore da vida, no paraíso de Deus. A promessa aponta para a vida eterna e para a comunhão restaurada com o Senhor. Aquilo que foi perdido no Éden será plenamente restaurado em Cristo, que venceu o pecado e a morte e conduz seu povo à nova criação.
A carta de Éfeso nos leva, portanto, a examinar nosso próprio coração. Talvez continuemos realizando muitas atividades, frequentando a igreja e conhecendo a Palavra, mas precisamos perguntar se essas coisas ainda são fruto de um coração que ama verdadeiramente o Senhor. O arrependimento não é uma tentativa de conquistar novamente o favor de Deus por nossos méritos. É o retorno àquele que, em sua graça, nos chama a viver em comunhão com Ele.
A fidelidade que permanece em meio ao sofrimento
A igreja em Esmirna enfrentava uma realidade bastante diferente. Situada ao norte de Éfeso, a cidade era conhecida por sua importância comercial e por sua lealdade ao Império Romano. O ambiente religioso era marcado pelo paganismo e, em determinados contextos, por oposição aos cristãos.
Nesse cenário, Cristo se apresenta como o primeiro e o último, aquele que esteve morto, mas tornou a viver. Essa apresentação não é acidental. A igreja enfrentava perseguições e sofrimentos por causa de sua fé, e precisava lembrar que seu Senhor havia vencido a própria morte.
Jesus conhece sua tribulação e sua pobreza, embora declare que ela é rica. Aos olhos do mundo, aquela comunidade poderia parecer fraca e desamparada, mas sua verdadeira riqueza estava em Cristo. A igreja enfrentava oposição, mas não havia negado o nome daquele que a chamou.
A mensagem de Jesus, entretanto, não promete que os cristãos seriam poupados de todo sofrimento. Pelo contrário, Cristo anuncia que alguns seriam presos e colocados à prova. A tribulação duraria dez dias, expressão que pode indicar um período determinado de sofrimento. O texto não exige que interpretemos esse número como uma duração literal e universal das perseguições. O que ele nos lembra é que o sofrimento da igreja não está fora do conhecimento e do governo de Deus.
A ordem de Cristo é clara: “Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida”. O Senhor não promete que seus seguidores jamais enfrentarão a morte física, mas assegura que a morte não terá a palavra final sobre aqueles que pertencem a Ele. O vencedor não sofrerá o dano da segunda morte, pois a vida eterna está assegurada na vitória de Cristo.
Essa promessa não significa que a salvação seja conquistada pelo mérito de suportar perseguições. A fidelidade cristã é uma resposta à graça de Deus. O cristão persevera porque pertence a Cristo, e sua esperança está naquele que já venceu a morte. A morte física pode atingir os filhos de Deus, mas não pode separá-los definitivamente daquele que ressuscitou.
Essa mensagem continua sendo um consolo para a igreja. Nem todos os cristãos enfrentam perseguições da mesma maneira, mas todos são chamados à fidelidade. Em algumas situações, ela pode significar suportar a rejeição de amigos, permanecer firme diante de pressões profissionais ou não negar a fé quando confessar a Cristo se torna inconveniente.
A esperança cristã não está em uma vida livre de sofrimentos, mas em um Salvador que venceu a morte. Por isso, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis, podemos permanecer firmes, sabendo que nossa vida está guardada naquele que ressuscitou. Não perseveramos para conquistar a coroa por nossos próprios méritos; perseveramos porque o Senhor que nos chama é também aquele que nos sustenta.
Resistir à perseguição e também à sedução do pecado
A terceira carta é dirigida à igreja em Pérgamo. A cidade era um importante centro político e religioso da Ásia Menor, marcada pela presença de cultos pagãos e pela adoração ao imperador. Nesse ambiente, confessar Jesus como Senhor poderia significar entrar em conflito com a sociedade ao redor.
Cristo se apresenta como aquele que tem a espada afiada de dois gumes. A imagem aponta para a autoridade de sua Palavra, que discerne o verdadeiro e o falso, e também para o julgamento do Senhor contra aquilo que se opõe à sua vontade. A igreja precisava compreender que sua fidelidade não poderia ser determinada pelas pressões da sociedade, mas pela autoridade daquele que a governa.
Jesus reconhece que aquela comunidade havia permanecido firme em um ambiente hostil. Seus membros não haviam negado o nome de Cristo, inclusive diante da morte de Antipas, uma testemunha fiel. Entretanto, havia um problema que comprometia a fidelidade da igreja: alguns sustentavam ensinamentos que incentivavam a idolatria e a imoralidade.
Pérgamo havia aprendido a resistir à perseguição, mas estava começando a ceder à sedução. O problema nos lembra que nem sempre o maior perigo para a igreja é uma perseguição aberta. Muitas vezes, o perigo está na tentativa de tornar o cristianismo confortável aos olhos do mundo, acomodando a verdade de Deus aos desejos do nosso coração.
Cristo não chama aquela igreja simplesmente a melhorar sua organização ou desenvolver novas estratégias. Ele ordena que se arrependa e abandone aquilo que estava comprometendo sua fidelidade ao Senhor. Ao vencedor, promete o maná escondido e uma pedra branca, na qual estará escrito um novo nome. A interpretação exata da pedra branca é discutida, mas a promessa aponta para a aceitação e a comunhão que Cristo concede aos seus. Em um mundo que oferecia falsas satisfações, Jesus prometia aquilo que verdadeiramente alimenta a alma.
Essa carta nos leva a examinar aquilo que temos permitido em nossa vida. Existe alguma coisa que tentamos conciliar com a fé cristã, mesmo sabendo que ela não agrada a Deus? Talvez seja um hábito, um relacionamento, uma ambição ou uma maneira de lidar com o próximo. O Senhor nos chama a abandonar as concessões ao pecado e a permanecer fiéis à sua Palavra.
Não fazemos isso para conquistar seu amor, mas porque fomos alcançados por sua graça e agora pertencemos a Ele. A verdadeira liberdade não está em fazer tudo aquilo que desejamos, mas em viver sob o senhorio daquele que nos libertou do pecado.
A igreja em Tiatira, por sua vez, possuía muitas virtudes, mas estava permitindo que o pecado encontrasse espaço em seu meio. A cidade era conhecida por suas atividades comerciais e pela presença de associações profissionais, algumas relacionadas a festividades pagãs. Para os cristãos que dependiam dessas atividades para sobreviver, permanecer fiéis a Cristo poderia significar enfrentar dificuldades econômicas e sociais.
Jesus se apresenta como o Filho de Deus, aquele que tem os olhos como chama de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido. Seus olhos veem aquilo que os homens não conseguem enxergar. Ele conhece as obras de sua igreja, seus desejos, suas intenções e até aquilo que ela tenta esconder.
Cristo reconhece o amor, a fé, o serviço e a perseverança daquela comunidade. Suas últimas obras eram maiores do que as primeiras. Entretanto, havia um problema sério: a igreja tolerava uma mulher identificada por Cristo como Jezabel, que exercia influência sobre a comunidade e conduzia alguns à idolatria e à imoralidade. O problema não era apenas a existência de uma falsa professora, mas a tolerância da igreja diante de seus ensinamentos.
Tiatira era amorosa, perseverante e trabalhadora, mas estava falhando em discernimento. Havia aprendido a servir, mas precisava aprender também a proteger a verdade. Essa advertência é importante porque nem toda demonstração de amor é verdadeiramente amorosa. Às vezes, aquilo que chamamos de tolerância é apenas uma maneira de evitar o confronto com o pecado. O verdadeiro amor não significa aprovar tudo o que alguém faz. Ele deseja o bem do próximo, e não existe bem maior do que viver em comunhão com Deus.
Cristo afirma que havia dado tempo para aquela mulher se arrepender, mas ela não quis. Ainda assim, havia uma palavra de consolo para os demais membros da igreja: aqueles que não haviam abraçado esse ensino deveriam permanecer firmes até sua vinda. Ao vencedor, Cristo promete autoridade sobre as nações e a estrela da manhã. Essa promessa aponta para a participação do povo de Deus na vitória e no Reino de Cristo. A estrela da manhã, identificada com o próprio Jesus em Apocalipse 22:16, nos lembra que nossa esperança não está nas promessas deste mundo, mas na comunhão com o Senhor.
Tiatira nos ensina que o amor cristão não pode ser separado da verdade. Podemos ser dedicados à igreja e, ainda assim, negligenciar a santidade. Podemos servir, ensinar e trabalhar, mas permitir que aquilo que desagrada a Deus encontre espaço em nosso coração. O Senhor nos chama a um amor que não se separa da verdade e a uma fidelidade que não se acomoda ao pecado. Esse chamado não deve ser recebido como uma tentativa de nos tornarmos dignos de Cristo, mas como resposta àquele que nos amou primeiro e nos chama a viver de maneira digna do evangelho.
A reputação humana e a realidade diante de Cristo
Em Sardes, encontramos uma situação ainda mais surpreendente. A cidade era conhecida por sua riqueza e posição estratégica, mas sua história também era marcada por momentos em que, apesar de suas defesas, havia sido surpreendida e conquistada por seus inimigos.
Cristo se apresenta como aquele que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas. Ele conhece as obras daquela comunidade e faz uma declaração severa: ela tinha nome de que vivia, mas estava morta.
Imagine uma igreja que possuía boa reputação. Talvez fosse conhecida por suas atividades, sua história ou sua influência. Aos olhos dos homens, parecia uma comunidade viva. Entretanto, aos olhos daquele que conhece todas as coisas, havia uma realidade muito diferente. A reputação daquela igreja não correspondia à sua condição espiritual.
Cristo não diz que tudo estava perdido. Ele ordena que a igreja desperte, fortaleça o que ainda restava e se arrependa. Havia ainda algumas pessoas que não haviam contaminado suas vestes e que andariam com Cristo vestidas de branco. A advertência de Sardes não é apenas contra a morte espiritual, mas também contra a ilusão de que uma boa aparência seja suficiente.
Quantas vezes podemos cair nesse mesmo erro? Podemos manter uma rotina religiosa, participar dos cultos, conhecer a doutrina, cantar os hinos e servir em diversas atividades da igreja. Entretanto, todas essas coisas podem se tornar apenas uma aparência se não houver uma vida de comunhão com Cristo. As obras não são irrelevantes; pelo contrário, são importantes. O problema surge quando deixam de ser fruto de uma fé viva e passam a ser apenas uma maneira de sustentar nossa reputação.
A solução apresentada por Jesus é clara: lembrar, guardar e arrepender-se. A igreja deveria lembrar daquilo que recebeu e ouviu, guardar a Palavra e abandonar a condição em que se encontrava. A promessa aos vencedores é preciosa: seriam vestidos de vestes brancas, seus nomes não seriam apagados do livro da vida e Cristo confessaria seus nomes diante do Pai e dos seus anjos.
Essa promessa nos conduz à confiança em Cristo, mas não à presunção. A segurança da salvação não é uma autorização para viver de maneira indiferente à santidade. O Senhor chama seu povo à perseverança, e suas advertências são instrumentos de sua graça para despertar aqueles que se encontram espiritualmente adormecidos.
Na compreensão reformada, a perseverança dos santos não significa que as advertências bíblicas sejam irrelevantes. Pelo contrário, Deus utiliza sua Palavra para preservar seu povo. Aquele que pertence verdadeiramente a Cristo é chamado a perseverar, não porque sua força seja suficiente, mas porque o Senhor é fiel para sustentá-lo.
Sardes nos convida a examinar nossa vida diante de Deus, especialmente quando ninguém está olhando. Não basta que os homens reconheçam nossa dedicação; precisamos de uma comunhão verdadeira com Cristo. Talvez estejamos vivendo de uma fé antiga, sustentada pelas experiências do passado, enquanto nosso coração se distancia do Senhor. Não precisamos fingir que estamos vivos quando Cristo conhece nossa verdadeira condição. A graça de Deus nos chama a despertar, e o mesmo Cristo que revela nossa condição é aquele que nos chama ao arrependimento e à restauração.
Pouca força, mas fidelidade à Palavra
Em Filadélfia, encontramos uma igreja que recebe de Cristo uma palavra de encorajamento e consolo. A cidade era conhecida por sua posição estratégica e importância comercial, mas também havia enfrentado terremotos e dificuldades ao longo de sua história.
Jesus se apresenta como o Santo e o Verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre e ninguém fecha, e que fecha e ninguém abre. Essa imagem aponta para a autoridade de Cristo. Ele é o Messias prometido, aquele cujo governo não pode ser impedido por nenhuma força humana.
Cristo afirma que havia colocado diante daquela igreja uma porta aberta que ninguém poderia fechar. A comunidade possuía pouca força, mas havia guardado a Palavra de Cristo e não havia negado seu nome. Que declaração maravilhosa! Aquela igreja não era necessariamente poderosa aos olhos do mundo. Não sabemos se possuía grandes recursos, influência política ou muitos membros. O que sabemos é que Cristo reconhece sua fidelidade.
Isso nos ensina que a fidelidade de uma igreja não é medida pelo tamanho de sua influência, mas por sua perseverança na Palavra de Deus. A imagem da porta aberta pode apontar para uma oportunidade concedida por Cristo, para o acesso ao Reino ou para outra dimensão de sua autoridade. Independentemente da interpretação específica, o ponto central é que o próprio Senhor governa os caminhos de sua igreja. Nenhuma força humana pode frustrar definitivamente os propósitos daquele que possui a chave de Davi.
Cristo também promete guardar aquela comunidade na hora da provação que viria sobre o mundo. Essa promessa é compreendida de maneiras diferentes entre os cristãos, inclusive dentro da tradição reformada. O texto não deve ser utilizado para afirmar que os cristãos estarão necessariamente livres de toda tribulação. O ponto que podemos preservar com segurança é que Cristo conhece seu povo, governa as provações e permanece fiel àqueles que guardam sua Palavra.
A igreja deveria permanecer firme, pois o Senhor viria em breve. Ao vencedor, Cristo promete fazê-lo coluna no santuário de Deus, de onde jamais sairia. Sobre ele escreveria o nome de Deus, o nome da nova Jerusalém e seu próprio novo nome. A imagem da coluna é especialmente significativa: em uma cidade marcada por terremotos, onde as pessoas muitas vezes precisavam abandonar suas casas, Cristo promete aos seus uma segurança definitiva em sua presença.
Essa mensagem nos lembra que não precisamos ser poderosos aos olhos do mundo para sermos fiéis a Cristo. Talvez estejamos tentando permanecer firmes em um ambiente onde nossa fé é desprezada. Talvez estejamos servindo ao Senhor sem receber reconhecimento ou cansados de fazer o que é certo enquanto parece que aqueles que fazem o contrário prosperam. Lembremos que Cristo conhece nossas obras. Ele não exige que sejamos poderosos aos olhos do mundo, mas nos chama a permanecer fiéis.
Filadélfia não recebeu essa promessa porque era forte, mas porque, mesmo tendo pouca força, guardou a Palavra e não negou o nome de Jesus. A perseverança cristã não depende, em última instância, da força que encontramos em nós mesmos, mas da fidelidade daquele que nos sustenta.
A riqueza que não pode substituir Cristo
Por fim, chegamos à igreja em Laodiceia, uma comunidade que talvez seja facilmente reconhecível em nossos dias. A cidade era importante, conhecida por sua riqueza, suas atividades comerciais e sua produção de tecidos. Também possuía uma escola de medicina e era conhecida por um tratamento oftalmológico produzido na região. Sua prosperidade era tão grande que, após um terremoto no século I, conseguiu reconstruir-se sem depender de auxílio financeiro do Império Romano.
É nesse contexto que Jesus se apresenta como o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus. Cristo é aquele que fala a verdade. Ele não se deixa enganar pelas aparências, nem se impressiona com a riqueza ou com a reputação de uma comunidade.
A mensagem começa com uma declaração conhecida: Jesus conhece as obras daquela igreja e sabe que ela não é fria nem quente, mas morna. A imagem está relacionada à condição da cidade e à qualidade de suas águas, embora os detalhes dessa reconstrução histórica não sejam inteiramente consensuais. O ponto central da advertência é que a igreja havia se tornado uma comunidade que não correspondia àquilo que deveria ser. Sua condição espiritual era desagradável ao Senhor, e ela não percebia sua própria necessidade.
O problema era ainda mais profundo. Laodiceia dizia: “Sou rica, estou abastada e não preciso de coisa alguma”. Entretanto, Cristo afirma que ela era miserável, pobre, cega e nua. Que contraste! A igreja acreditava possuir tudo aquilo de que precisava, mas não percebia sua verdadeira condição espiritual. A autossuficiência havia tomado o lugar da dependência de Deus.
É possível possuir muitos recursos e, ainda assim, ser espiritualmente pobre. É possível ter conforto, estabilidade financeira, conhecimento e influência, mas viver sem perceber nossa necessidade de Cristo. O problema não está na riqueza em si, mas na confiança que depositamos nela. Quando acreditamos que nossas conquistas são suficientes para nos sustentar, começamos a esquecer que tudo aquilo que temos é recebido da graça de Deus.
Cristo aconselha aquela igreja a comprar dele ouro refinado pelo fogo, vestes brancas e colírio para que pudesse enxergar. Essas imagens contrastam diretamente com aquilo pelo qual Laodiceia era conhecida. A riqueza da cidade não poderia resolver sua pobreza espiritual; seus tecidos não poderiam cobrir sua vergonha; sua medicina não poderia curar sua cegueira. Somente Cristo poderia oferecer aquilo de que ela realmente precisava.
Então encontramos uma das declarações mais preciosas da carta: Cristo repreende e disciplina aqueles a quem ama. Por isso, ordena que a igreja seja zelosa e se arrependa. A repreensão de Jesus não é uma declaração de abandono, mas um chamado à restauração.
Logo depois, encontramos a imagem de Cristo à porta, batendo e chamando. Essa passagem é frequentemente utilizada em evangelizações, mas seu contexto imediato é uma advertência dirigida à própria igreja. Cristo está chamando uma comunidade que havia se tornado autossuficiente a voltar à comunhão com Ele. A promessa é maravilhosa: aquele que ouvir sua voz e abrir a porta desfrutará de comunhão com o Senhor. Ao vencedor, Cristo promete conceder o privilégio de se assentar com Ele em seu trono, assim como Ele venceu e se assentou com o Pai.
A esperança da igreja não está em suas riquezas, mas na vitória de Cristo. Essa última carta nos conduz a uma pergunta fundamental: realmente reconhecemos o quanto precisamos de Jesus? Talvez estejamos vivendo um período de estabilidade. Nossa vida está organizada, nosso trabalho prospera e nossas necessidades são supridas. Mas será que, em meio a tudo isso, continuamos dependendo do Senhor?
A autossuficiência é perigosa porque nos faz acreditar que podemos viver sem a graça de Deus. Quando deixamos de reconhecer nossa necessidade de Cristo, até mesmo as bênçãos que recebemos podem se tornar instrumentos de nosso afastamento. Não permita que o conforto deste mundo o faça esquecer daquele que é a verdadeira fonte de vida. Cristo continua chamando sua igreja ao arrependimento e oferecendo comunhão àqueles que reconhecem sua necessidade.
Cristo conhece sua igreja e sustenta seu povo
Ao contemplarmos as sete cartas, percebemos que cada igreja enfrentava uma realidade distinta. Éfeso precisava recuperar seu primeiro amor; Esmirna, permanecer fiel em meio à perseguição; Pérgamo, abandonar as concessões ao pecado; Tiatira, unir amor e verdade; Sardes, despertar; Filadélfia, perseverar; e Laodiceia, reconhecer sua dependência de Cristo.
E nós? Talvez encontremos um pouco de cada uma dessas igrejas em nossa própria vida. Em alguns momentos, precisamos ser consolados; em outros, repreendidos. Há ocasiões em que somos chamados a perseverar, enquanto em outras precisamos reconhecer que nos acomodamos ao pecado ou nos tornamos confiantes demais em nossas próprias capacidades. Em todos esses momentos, precisamos ouvir a voz daquele que caminha no meio dos candeeiros.
Essas cartas nos ensinam que Cristo não é indiferente à condição de sua igreja. Ele conhece nossas obras, nossas virtudes, nossas falhas, nossas perseguições e até mesmo aquilo que tentamos esconder. Conhece o coração de cada cristão e a realidade de cada comunidade. Mas, acima de tudo, essas cartas nos apontam para a suficiência de Jesus Cristo.
Ele é aquele que venceu a morte e concede a coroa da vida. É aquele cuja Palavra julga e purifica. É aquele que conhece os seus, sustenta os fracos e chama os pecadores ao arrependimento. É aquele que promete comunhão eterna àqueles que permanecem fiéis.
A igreja não persevera porque é moralmente superior ao mundo. Ela persevera porque pertence ao Cordeiro. Não vence porque possui força suficiente em si mesma, mas porque está unida ao Cristo vencedor. Não recebe a vida eterna porque acumulou méritos suficientes, mas porque Cristo conquistou a redenção e concede a vida ao seu povo.
Essa verdade não diminui nossa responsabilidade; pelo contrário, estabelece seu fundamento correto. O cristão não abandona o pecado para conquistar o amor de Deus, mas luta contra o pecado porque foi alcançado pelo amor de Deus em Cristo. Não persevera para comprar a vida eterna, mas porque pertence ao Senhor que o sustenta. Não desperta espiritualmente para se tornar digno da graça, mas porque a graça de Deus o chama à vida.
Nossa esperança não está em nossa própria força, em nossa reputação, em nossos recursos ou em nossas estratégias. Nossa esperança está naquele que morreu, mas tornou a viver, e que prometeu estar conosco até a consumação dos séculos.
Que possamos ouvir o que o Espírito diz às igrejas. Que sejamos encontrados fiéis à Palavra, perseverantes em meio às provações, zelosos em nossas obras e humildes diante da graça de Deus. E que, ao final de nossa caminhada, possamos contemplar aquele que nos chamou, reconhecendo que toda a nossa esperança, desde o primeiro passo até a consumação de nossa salvação, está em Jesus Cristo.
Maranata! Ora vem, Senhor Jesus.
