O quanto ser cristão significa para você?

Descubra como Calvino e Tiago podem nos ajudar a compreender o que significa, de fato, ser cristão.

VIDA CRISTÃ

Antonio Marcos dos Santos

8/31/202612 min read

Recentemente, estava conversando com um amigo sobre a importância do cristianismo e, em determinado momento, começamos a falar sobre algo que considero uma falta de zelo: quando dizemos que estamos ocupados demais para fazer algo para Deus.

Mas, antes de continuar, precisamos esclarecer o que estamos querendo dizer quando falamos em "fazer algo para Deus". Não estou falando simplesmente sobre participar de um evento da igreja, estar presente em uma programação ou ocupar algum espaço dentro de um ministério. A questão é muito maior do que essa.

Estou falando sobre viver para Deus.

E talvez seja justamente aqui que precisamos começar, porque a vida cristã não consiste simplesmente em fazer cada vez mais coisas para Deus. Antes de qualquer coisa, ela consiste em pertencer a Cristo. É da graça que recebemos, da fé que depositamos nele e da nossa união com Cristo que nasce uma vida transformada.

Isso é importante porque a justificação pela fé não elimina as boas obras. Pelo contrário. A fé verdadeira jamais permanece estéril. Justificação e santificação não podem ser separadas, ainda que precisemos manter uma distinção muito clara entre elas: nossas boas obras nunca são a causa pela qual somos aceitos diante de Deus. Somos justificados pela justiça de Cristo, recebida pela fé. E justamente essa união com Cristo produz uma nova vida.

Por isso, talvez a pergunta não seja simplesmente: "Quanto você faz para Deus?"

Talvez precisemos começar com uma pergunta ainda mais profunda:

O quanto ser cristão significa para você?

A verdadeira religião também se manifesta no amor ao próximo

Quando pensamos sobre o que significa praticar a verdadeira religião, Tiago nos apresenta algo bastante interessante. Ele fala sobre cuidar dos órfãos e das viúvas em suas necessidades.

Essa preocupação não aparece isolada nas Escrituras. Ela nos lembra da maneira como Deus havia estabelecido que Israel deveria tratar os necessitados. Quando alguém possuía uma terra e fazia sua colheita, por exemplo, não deveria recolher absolutamente tudo. Algumas espigas deveriam permanecer no campo para que os necessitados, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros pudessem passar por ali e encontrar recursos para a sua vida.

Quando Tiago retoma esse princípio e apresenta o cuidado com os necessitados como uma expressão da verdadeira religião, ele nos ajuda a perceber algo que muitas vezes esquecemos: o amor ao próximo não é um detalhe periférico da vida cristã.

A verdadeira piedade necessariamente produz consequências na maneira como tratamos as pessoas ao nosso redor.

Ao tratar da lei de Deus, as Escrituras não apresentam o amor ao próximo como uma alternativa ao amor a Deus. Pelo contrário, é justamente a relação correta com Deus que produz uma maneira correta de nos relacionarmos com aqueles que estão ao nosso redor. O amor que recebemos de Deus passa a ser manifestado concretamente na nossa vida.

Mas isso ainda nos leva a uma pergunta importante: o que significa, de fato, fazer algo para Deus?

Uma das formas de servir a Deus é servir ao próximo

Quando faço alguma coisa por alguém que precisa de ajuda, isso pode parecer, à primeira vista, apenas uma forma de prestar assistência a outra pessoa. Mas, quando compreendemos a vida cristã a partir da nossa união com Cristo, percebemos que existe algo muito maior acontecendo.

Ao servir o meu próximo, estou expressando também aquilo que creio a respeito de Deus.

Isso não significa que possamos reduzir o cristianismo à assistência social. O cristianismo não é simplesmente uma proposta de transformação das relações humanas. Existe algo anterior e maior: fomos reconciliados com Deus por meio de Cristo e chamados a viver em fé, obediência e santidade.

Mas justamente porque pertencemos a Cristo, nossa fé não pode permanecer apenas no discurso. Ela precisa aparecer na maneira como vivemos.

É por isso que fazer algo para Deus não significa necessariamente estar dentro de um templo, participando de um ministério ou realizando uma atividade que carregue explicitamente o nome de Deus.

Se estou dentro da igreja, atuando em um ministério, e faço aquilo não simplesmente para alimentar meus próprios interesses, mas para servir à minha igreja, à minha comunidade e aos meus irmãos, estou vivendo minha fé.

Da mesma maneira, se estou no meu trabalho e tenho um colega que precisa de alguma coisa, e decido servi-lo com honestidade, generosidade e amor, também estou vivendo minha fé naquele lugar.

A questão não é transformar todo trabalho em uma atividade religiosa. A questão é compreender que não existe uma área da nossa vida em que deixamos de pertencer a Cristo.

E é justamente aqui que temos que voltar a falar sobre a doutrina da vocação.

A vocação também é uma forma de servir a Deus

Deus nos coloca em diferentes posições e nos confia diferentes responsabilidades. Nem todos possuem o mesmo trabalho, a mesma família, os mesmos dons ou as mesmas oportunidades. Por isso, a fidelidade cristã não pode ser medida simplesmente pela quantidade de atividades religiosas que conseguimos acumular.

Existe uma maneira muito comum de pensar sobre a vida cristã como se algumas coisas fossem realmente "de Deus" e outras fossem apenas partes necessárias da nossa vida. Assim, trabalhar seria uma coisa, cuidar da família seria outra, servir à Igreja seria outra e, finalmente, dedicar algum tempo às coisas espirituais seria aquilo que realmente fazemos para Deus.

Mas a doutrina da vocação nos ajuda a enxergar nossa vida de outra maneira.

Deus nos chama a trabalhar. Deus nos chama a cuidar da nossa família. Deus nos chama a servir à Igreja. Temos responsabilidades diante da sociedade e das pessoas que ele colocou ao nosso redor. Essas responsabilidades não competem necessariamente umas com as outras, porque todas devem ser compreendidas dentro da vida que pertence a Cristo.

Isso muda bastante a maneira como enxergamos a rotina.

Se estou trabalhando, não significa que deixei de viver para Deus. Se estou cuidando da minha família, minha vida cristã não ficou suspensa durante aquele período. Se estou descansando depois de uma semana difícil, não deixei de pertencer a Cristo. E, da mesma maneira, se estou dentro da igreja, isso não significa que somente naquele momento estou servindo a Deus.

Minha vocação acontece diante de Deus.

Por isso, aquilo que fazemos dentro dela deve ser realizado com responsabilidade, gratidão, honestidade e amor.

Você está ocupado demais para Deus?

É por isso que a afirmação "eu não tenho tempo para fazer algo para Deus porque estou trabalhando" precisa ser analisada com cuidado.

Talvez o problema esteja justamente na forma como estamos entendendo a expressão "fazer algo para Deus".

A pergunta talvez não devesse ser simplesmente: "Quanto tempo eu tenho para fazer coisas para Deus?"

Talvez devêssemos perguntar: "O que Deus me chamou para fazer neste momento da minha vida?"

Existem períodos em que a família exigirá mais de nós. Existem períodos em que o trabalho exigirá nossa atenção. Existem momentos em que precisaremos servir à igreja de maneira mais intensa e outros em que precisaremos cuidar de alguém próximo. Também existem momentos em que nossa responsabilidade será simplesmente cumprir com fidelidade aquilo que Deus colocou diante de nós.

O problema aparece quando colocamos todas essas coisas em compartimentos completamente separados, como se Deus estivesse presente em alguns deles e ausente nos demais.

Não é assim.

Cristo permanece no centro.

Isso significa que diferentes responsabilidades podem exigir diferentes níveis de atenção em diferentes momentos, mas nenhuma delas está fora do senhorio de Cristo. A família não compete com Cristo. O trabalho não compete com Cristo. A Igreja não compete com Cristo. Todas essas coisas precisam ser compreendidas dentro da vida que pertence a Cristo.

Você não é uma pessoa dividida

Existe ainda outra questão importante: nós não somos cristãos diferentes dependendo do ambiente em que estamos.

Você não é uma pessoa na igreja e outra no trabalho. Não é uma pessoa dentro de casa e outra fora dela. O ambiente muda, a responsabilidade muda, a tarefa muda, mas você continua sendo a mesma pessoa diante de Deus.

É justamente quando começamos a separar aquilo que não deveria ser separado que aparecem situações escandalosas: pessoas que são uma coisa dentro da igreja e completamente diferentes fora dela.

A vida cristã não deveria funcionar dessa maneira.

Se minha vida está sendo transformada pela graça de Deus, essa transformação precisa alcançar a totalidade da minha existência. Quando estou na igreja, devo honrar a Deus. Quando estou em casa, devo honrar a Deus. Quando estou com minha família, devo honrar a Deus. Quando estou no trabalho, devo honrar a Deus. Quando estou sozinho, continuo diante de Deus.

Não porque existam vários "eus" que precisam aprender a se comportar de maneiras diferentes, mas porque existe uma única vida que pertence a Cristo.

Onde quer que eu esteja, continuo sendo cristão.

Nem sempre conseguiremos fazer tudo

Mas é importante dizer isso com equilíbrio.

Existem momentos em que realmente não conseguiremos servir nossa igreja local da maneira como gostaríamos. Pode acontecer uma viagem de trabalho, uma doença na família que exija nossa presença ou alguma outra situação que nos obrigue a reorganizar temporariamente nossas prioridades.

E tudo bem.

A vida cristã não é uma competição para descobrir quem consegue fazer mais coisas.

A doutrina da vocação nos ajuda justamente nesse ponto. Nem todas as pessoas receberam as mesmas responsabilidades, e fidelidade não significa abandonar aquilo que Deus colocou diante de nós simplesmente para tentar reproduzir aquilo que outra pessoa está fazendo.

Às vezes, servir a Deus significa estar em uma reunião da igreja. Em outro momento, pode significar cuidar de um filho. Pode significar trabalhar honestamente para sustentar a própria casa, visitar alguém que está sofrendo ou simplesmente cumprir com fidelidade uma responsabilidade que ninguém mais vê.

O ponto não é descobrir qual dessas atividades parece mais "espiritual". O ponto é compreender que todas elas podem ser realizadas diante de Deus e que nenhuma delas deve ser tratada como se estivesse separada da nossa vida cristã.

A Igreja não é apenas um prédio — mas também não é irrelevante

Essa compreensão também nos ajuda a olhar para a Igreja de maneira mais equilibrada.

Não precisamos transformar o prédio de uma igreja, uma denominação ou determinado formato de programação na própria definição de cristianismo. Existem diferentes contextos nos quais cristãos podem se reunir, exercer comunhão e servir uns aos outros.

Mas reconhecer isso não significa tornar a Igreja visível irrelevante.

Precisamos ser claros nesse ponto. A Igreja é uma comunidade concreta, e a pregação fiel da Palavra e a administração dos sacramentos são marcas fundamentais pelas quais a verdadeira Igreja pode ser reconhecida. Por isso, abandonar deliberadamente a comunhão de uma comunidade cristã onde esses elementos estão presentes é algo grave.

Quando criticamos a ideia de que somente uma determinada estrutura física representa a Igreja, portanto, não devemos cair no extremo oposto e imaginar que qualquer reunião, independentemente de sua fidelidade à Palavra, seja indistintamente a mesma coisa.

A Igreja não é simplesmente um prédio. Mas também não é simplesmente um grupo de pessoas que decidiu se reunir.

Ela é a comunidade dos santos reunida sob a Palavra de Deus e os sacramentos, vivendo em comunhão.

Por isso, participar da vida da Igreja continua sendo uma parte importante da vida cristã.

Nem a denominação nem o formato nos tornam cristãos melhores

Da mesma maneira, quem participa de uma igreja denominacional ou confessional não deveria olhar para si mesmo como se fosse automaticamente superior a outros cristãos simplesmente porque se reúne daquela maneira.

Nossa identidade não está na placa da igreja, no nome da denominação ou na quantidade de atividades de que participamos.

Mas isso também não significa que todas as diferenças doutrinárias sejam irrelevantes.

Precisamos valorizar profundamente a unidade da Igreja e rejeitar divisões motivadas por questões secundárias. Ao mesmo tempo, precisamos considerar fundamental a fidelidade da Igreja à Palavra e aos sacramentos.

As duas coisas precisam permanecer juntas.

Não devemos transformar nossa identidade denominacional em motivo de orgulho, mas também não devemos tratar a verdade doutrinária e a vida da Igreja como coisas indiferentes.

Existe um todo do qual fazemos parte, e esse todo é maior do que a nossa própria comunidade local.

O problema de ser apenas um consumidor

É aqui que chegamos a um problema muito sério.

Se você está consumindo alguma coisa, alguém está produzindo. E, se alguém está produzindo, essa pessoa está derramando sobre aquilo lágrimas, suor, dedicação e tempo que você talvez não esteja disposto a oferecer simplesmente porque não quer assumir um compromisso.

É aqui que voltamos àquela falta de zelo mencionada no início.

Quando uma pessoa é tão descompromissada que deixa constantemente outras pessoas trabalhando por ela sem nunca se colocar no lugar de servir ao próximo, existe um problema.

Não porque todos precisem fazer as mesmas coisas. Cada pessoa possui dons, responsabilidades e circunstâncias diferentes. O problema está em transformar a vida cristã em uma experiência de consumo, na qual sempre existem pessoas trabalhando, servindo e se sacrificando enquanto outras simplesmente recebem.

A fé cristã não nos chama para uma vida de passividade.

A Igreja é comunhão. Somos chamados a servir, a amar, a carregar os fardos uns dos outros e a utilizar aquilo que recebemos para o bem do corpo de Cristo e do próximo.

Por isso, participar dos cultos, contribuir financeiramente e frequentar as atividades da igreja são coisas importantes, mas nenhuma delas transforma automaticamente uma pessoa em alguém que serve ao próximo.

Em algum momento, precisamos sair da pergunta "o que a igreja está oferecendo?" e começar a perguntar:

"Como posso servir?"

Não somos chamados para produzir apenas para alimentar o próprio ego

Mas existe um outro perigo que precisa ser considerado.

Podemos deixar de ser consumidores e nos tornar produtores de atividades religiosas sem necessariamente nos tornarmos pessoas mais piedosas.

Uma pessoa pode estar dentro da igreja fazendo muitas coisas, participando de atividades, trabalhando em ministérios e aparentemente servindo a todos, mas, no fundo, estar fazendo tudo aquilo apenas para alimentar o próprio ego.

Nesse caso, ela parece estar servindo, mas pode estar servindo principalmente a si mesma.

E isso também é um problema.

As boas obras do cristão não existem para alimentar sua própria glória. Por isso, precisamos insistir novamente naquilo que já dissemos no início: nossa justificação não repousa sobre nossas obras. Nossa confiança precisa estar em Cristo.

As boas obras são necessárias como frutos da fé, mas não são o fundamento da nossa aceitação diante de Deus.

Isso significa que até mesmo nosso serviço precisa ser examinado.

Para quem estou fazendo?

Posso estar trabalhando muito para a igreja e, ao mesmo tempo, estar trabalhando para mim. Posso estar ajudando muitas pessoas e, ao mesmo tempo, estar buscando reconhecimento. Posso estar ocupando uma posição de liderança e, ao mesmo tempo, estar alimentando minha própria vaidade.

É possível fazer muito e, ainda assim, fazer tudo para si mesmo.

E talvez essa seja uma das coisas mais perigosas do serviço cristão: quando aquilo que deveria ser oferecido a Deus passa a ser utilizado para construir nossa própria imagem.

Para quem você está fazendo?

Também é possível realizar uma tarefa simples, cuidar de alguém, ajudar uma pessoa necessitada, trabalhar honestamente, cuidar da própria família ou servir à comunidade e fazer tudo isso com o coração voltado para Deus.

É por isso que a questão nunca foi simplesmente quanto você faz.

A questão também é para quem você está fazendo.

Existe uma liberdade nisso que muitas vezes esquecemos. Você não precisa transformar sua vida em uma sequência interminável de atividades religiosas para provar que é cristão.

Você precisa viver fielmente diante de Deus. Precisa reconhecer sua dependência da graça, confiar em Cristo, viver sua vocação, amar o próximo, servir à Igreja e fazer o bem.

E precisa lembrar que até mesmo a capacidade de fazer essas coisas vem da graça de Deus.

As boas obras não são o preço que pagamos para sermos aceitos por Deus. Elas são frutos de uma vida que já foi alcançada pela graça.

Isso muda completamente a maneira como enxergamos o serviço.

Eu não sirvo para que Deus me aceite.

Eu sirvo porque, em Cristo, fui alcançado pela graça.

O quanto ser cristão significa para você?

Talvez, então, a pergunta mais importante desse artigo não seja simplesmente: "Quanto você faz para Deus?"

Talvez seja:

"O quanto ser cristão significa para você?"

Porque, se Cristo realmente está no centro da nossa vida, não existe uma parte dela que possa ser simplesmente entregue a nós mesmos.

Na igreja, em casa, com a família, no trabalho ou em qualquer outro lugar, continuamos pertencendo a Cristo. Nossa vocação, nossas responsabilidades, nossos relacionamentos, nosso trabalho, nosso descanso, nosso serviço e nossa vida comunitária acontecem diante dele.

Por isso, nossa vida cristã não pode ficar confinada a um espaço específico da semana. Não somos cristãos apenas quando estamos dentro da igreja, assim como não deixamos de ser cristãos quando saímos dela.

A fé precisa alcançar a vida inteira.

Isso não significa que precisamos estar o tempo inteiro realizando atividades religiosas. Significa algo muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais profundo: tudo aquilo que somos e fazemos deve ser compreendido à luz daquele a quem pertencemos.

Não porque aquilo que fazemos nos torna dignos de Cristo.

Mas porque, tendo sido alcançados por Cristo, já não vivemos para nós mesmos.

É por isso que nossa vida inteira deve ser vivida para ele.