Não me deixe ficar parado
Primeira história do Propósito do Necessário. Tanor perdeu a esperança, mas uma última escolha o colocará novamente a caminho.
FICÇÃO CRISTÃ
Antonio Marcos dos Santos
9/12/20265 min read
Certo dia, um homem extremamente rancoroso e desesperançoso resolveu acabar com a própria vida. Seu nome era Tanor.
No fundo, não era um homem mau. Mas o mundo parecia tê-lo colocado entre duas pedras de moinho e apertado seu coração até que dele não restasse uma única gota de esperança.
Estava esgotado.
Diziam que podia aprender qualquer ofício. Se fosse colocado numa oficina, logo seria o melhor artesão. Se trabalhasse na lavoura, faria a terra produzir. Se levantasse uma casa, ninguém encontraria uma parede torta. Nunca reclamava do trabalho, nunca dizia não quando precisavam dele. Era um homem calado, de poucas palavras, mas de mãos sempre ocupadas.
Trabalhava.
E trabalhava.
Até que, certo dia, enquanto terminava mais um serviço, perguntou a si mesmo:
— Por que continuo trabalhando?
A pergunta permaneceu sem resposta.
Desde menino a vida lhe ensinara apenas a perder.
Perdera o pai quando ainda era criança.
Sua mãe e ele passaram anos trabalhando para alguns parentes em troca de um pequeno quarto onde pudessem dormir em uma das Tribos. Trabalhavam desde o nascer do sol até que a noite escondesse as próprias mãos.
De tanto trabalhar, sua mãe adoeceu.
Tanor ainda era pequeno demais para fazer qualquer coisa além de pedir ajuda.
Pediu aos tios.
Pediu aos vizinhos.
Pediu aos homens para quem tantas vezes haviam trabalhado.
Mas ninguém apareceu.
Sua mãe morreu poucos dias depois.
E Tanor...
Bem...
Tanor continuou trabalhando.
Os anos passaram.
Continuou ajudando pessoas.
Continuou servindo em tudo que podia fazer.
Continuou carregando pesos que nem eram seus.
Até que um dia se cansou.
Resolveu que nunca mais desperdiçaria suas forças com os outros.
Passou a negar ajuda.
Juntou tudo o que podia para si.
Traçou seus próprios objetivos. Depois de anos de trabalho, conseguiu comprar um pequeno domo na capital da Tribo da Felicidade.
Muitos passavam a vida inteira sonhando com aquilo.
Morava agora em um dos bairros externos da capital.
Não era um grande domo, mas dali bastava caminhar alguns minutos para encontrar mercados, oficinas, jardins e laboratórios. Era exatamente a vida que tantos desejavam.
Sua mesa nunca mais ficou vazia.
Seu bolso tornou-se bem mais cheio.
Mas seu coração...
Esse parecia morrer um pouco mais a cada dia.
Há vazios que não aceitam ser preenchidos por coisas. Mesmo as mais valiosas acabam sendo rejeitadas pelo coração.
Na Tribo da Felicidade ninguém passava fome. Havia trabalho. Havia segurança. Havia oportunidades.
Mesmo assim, naquela manhã, Tanor tomou uma decisão.
— Hoje dou cabo desta vida miserável.
Trabalhou o dia inteiro.
Quando voltava para seu domo encontrou um velho tentando retirar um monte de entulho da frente de seu quintal.
Olhou para o homem.
Olhou para o caminho.
Suspirou.
Largou a mochila.
Empurrou pedras.
Carregou madeira.
Varreu o chão.
O velho apoiou-se na pá, sorriu discretamente e disse:
— Ainda existem mãos fortes por este mundo.
Tanor apenas assentiu.
Enquanto retomava o caminho murmurou consigo:
— Hoje vou tirar minha própria vida... e ainda assim estou aqui ajudando os outros.
Chegou em seu domo, olhou para as árvores em seu jardim e tudo aquilo que tinha conquistado, mas nada daquilo significou algo realmente importante pra ele.
Entrou em casa, preparou um simples ensopado de lentilhas.
Comeu devagar.
Talvez pela primeira vez em muito tempo tenha saboreado verdadeiramente uma refeição.
Depois deitou-se.
O cansaço venceu antes mesmo que terminasse seus pensamentos.
E sonhou.
No sonho caminhava entre uma multidão.
Havia homens.
Mulheres.
Velhos.
Crianças.
Todos caminhavam na mesma direção.
Todos carregavam pesadas correntes presas aos pés e mãos.
Somente Tanor estava livre.
Pensou consigo em seguir a multidão.
Mas ao longe surgiu uma luz.
E uma voz o chamou.
Era uma voz tranquila.
Não impunha medo.
Não ordenava.
Apenas chamava.
Tanor começou a caminhar em direção àquela luz.
Enquanto avançava percebeu que todos os acorrentados seguiam exatamente para o lado oposto.
Pensou consigo:
"Isso não é problema meu."
E continuou andando.
Subiu uma colina.
A luz estava cada vez mais próxima.
Mas antes de alcançar o alto, resolveu olhar para trás.
Foi então que viu.
Lá adiante existia um enorme abismo.
Toda aquela multidão caminhava diretamente para ele.
Ninguém parecia perceber.
E mesmo que percebessem, as correntes os impediam de mudar de caminho.
Tanor permaneceu imóvel.
As palavras que havia pensado voltaram-lhe à memória.
"Isso não é problema meu."
A voz tornou a chamá-lo.
Ele permaneceu parado.
A voz chamou outra vez.
Ainda assim não respondeu.
Por fim falou:
— Eu sei quem você é...
A voz respondeu:
— E quem sou?
— Você é o Fim.
Falaram-me que pessoas boas recebem descanso quando tudo termina... e que as ruins caminham para o abismo.
Fez uma pausa.
Baixou a cabeça.
— Mas agora... eu não consigo ver diferença entre mim e eles.
Talvez um dia eu tenha sido um homem bom.
Mas não hoje.
Não agora.
Mesmo assim... você me chamou.
Você mostrou um caminho.
Eu poderia simplesmente ter seguido a multidão...
Mas você me chamou.
E por isso... eu sou grato, mesmo sem achar que realmente mereço.
A voz permaneceu em silêncio.
Então Tanor perguntou:
— Posso fazer uma pergunta?
— Diga, meu rapaz.
Tanor apontou para a multidão.
— E quanto a eles?
A voz respondeu:
— Estes são os perdidos. Eles caminham apenas pelo caminho que aprenderam.
Naquele instante Tanor começou a chorar.
Lembrou-se da mãe.
Das palavras que ela dizia enquanto ainda era criança.
"A providência lhe deu mãos fortes.
Quem recebe mãos fortes deve aliviar o peso dos outros."
Pensou em todas as vezes que poderia ter ajudado alguém.
Em todos os conselhos que deixou de dar.
Em todas as pessoas para quem virou as costas.
E perguntou a si mesmo:
"E se eu tivesse feito mais?
E se eu tivesse parado para ouvir?
E se eu tivesse caminhado ao lado de alguém?
Será que pelo menos um deles teria encontrado outro caminho?"
Foi então que percebeu algo que nunca havia entendido.
Os únicos momentos verdadeiramente felizes de toda a sua vida haviam sido aqueles em que ajudou quem precisava.
Mesmo na pobreza.
Mesmo na fome.
Mesmo na dor.
Depois que passou a viver apenas para si...
Nunca mais se encontrou novamente com a alegria.
A voz chamou mais uma vez.
— Você vem?
Tanor respirou profundamente.
— Vou...
Fez outra pausa.
Olhou novamente para os acorrentados.
— Mas... você poderia me deixar ir primeiro até eles?
Por um instante houve silêncio.
Depois houve uma risada.
Não era uma risada de zombaria.
Era a risada serena de um pai que vê um filho compreender aquilo que sempre desejou lhe ensinar.
— Claro.
Disse a voz.
Tanor despertou se seu sono.
Ainda segurava a vasilha vazia do ensopado.
A madrugada permanecia silenciosa.
Levantou-se lentamente.
Vestiu suas longas roupas negras.
Pegou sua bolsa.
Colocou dentro apenas o necessário.
Antes de sair, olhou uma última vez para a pequena casa.
Então disse baixinho:
— Dessa vez não ficarei parado.
— Vou pelos desertos.
— Vou pelas tribos.
— Vou até as Grandes Torres.
— Vou ajudar a quem encontrar.
— Vou servir enquanto ainda tiver forças.
Fechou a porta atrás de si.
E, antes mesmo de o sol nascer, começou a caminhar.
