Como conhecer a Deus? O que a Bíblia ensina sobre conhecer Deus
Descubra como a Bíblia responde à pergunta: Deus existe? Entenda como Deus se revela e como podemos conhecê-lo verdadeiramente.
Antonio Marcos dos Santos
8/14/202610 min read


Como podemos conhecer a Deus?
Existe uma pergunta que acompanha a humanidade desde o seu início: Deus existe? Civilizações inteiras tentaram responder a essa pergunta. Filósofos construíram sistemas de pensamento para investigá-la, cientistas procuraram compreender a origem do universo e teólogos escreveram obras inteiras sobre a existência de Deus. Seria natural, portanto, imaginar que a Bíblia começasse justamente por aí. Talvez apresentando primeiro as provas da existência de Deus, depois respondendo às principais objeções e, somente então, explicando quem esse Deus é.
Mas não é isso que encontramos.
Na primeira frase da Bíblia, Deus já está lá. "No princípio, Deus criou os céus e a terra" (Gênesis 1.1). Não existe uma introdução tentando provar que Deus existe. Não encontramos uma longa demonstração filosófica antes de começar a narrativa. A Escritura simplesmente declara que Deus existe e passa imediatamente a falar sobre aquilo que Ele fez.
Isso é curioso. A Bíblia não parece tratar a existência de Deus como uma hipótese que precisa ser descoberta pelo homem. Ela começa com Deus como realidade. Ele não aparece no final de uma investigação humana, como alguém que finalmente foi encontrado depois de uma longa procura. Ele aparece desde o princípio como o Criador e sustentador de toda a realidade.
Isso não significa que a Bíblia despreze a razão ou ignore as evidências da existência de Deus. Significa que ela parte de uma compreensão diferente sobre como Deus pode ser conhecido. A questão, portanto, talvez não seja simplesmente perguntar: "Será que Deus existe?". Antes disso, precisamos perguntar: "Como Deus escolheu se revelar?"
Essa pequena mudança de perspectiva altera completamente a conversa.
Deus não é alguém que o homem descobriu
Quando pensamos no conhecimento de Deus, podemos facilmente imaginar que o movimento começa em nós. Observamos o universo, fazemos perguntas, construímos argumentos, analisamos as evidências e, depois de todo esse processo, chegamos à conclusão de que Deus existe.
A Bíblia apresenta a direção de maneira diferente.
O movimento fundamental não parte do homem em direção a Deus. Parte de Deus em direção ao homem.
Paulo escreve aos Romanos que aquilo que pode ser conhecido sobre Deus foi manifestado porque o próprio Deus o manifestou (Romanos 1.19). A criação revela Deus porque Deus escolheu revelar-se por meio dela. O conhecimento de Deus começa com a iniciativa do próprio Deus.
Isso é importante porque Deus não é um objeto que colocamos sobre uma mesa para medir, pesar ou examinar como fazemos com outras coisas que estudamos. Ele é o próprio Criador de todas as coisas. Se podemos conhecê-lo, é porque Ele decidiu tornar-se conhecido.
E, segundo as Escrituras, Ele não permaneceu escondido.
A criação fala
Antes mesmo de abrirmos a Bíblia, existe um testemunho diante de nós: a própria criação.
O Salmo 19 afirma que "os céus declaram a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos". Um dia anuncia ao outro, e uma noite revela conhecimento à outra. A criação inteira funciona como um testemunho contínuo.
Paulo desenvolve essa mesma ideia em Romanos 1.20, quando afirma que os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina são claramente percebidos por meio das coisas que foram criadas.
Isso não significa que uma árvore, uma estrela ou uma montanha fale literalmente conosco. Significa que aquilo que foi criado aponta para além de si mesmo. A ordem, a beleza, a complexidade e a existência das coisas criadas testemunham acerca daquele que as criou.
As chuvas e as estações frutíferas, por exemplo, são apresentadas em Atos 14.17 como testemunhas da bondade de Deus. Os céus proclamam sua glória. A criação inteira aponta para o Criador.
Por isso, quando observamos o universo, a pergunta não precisa ser apenas "como isso funciona?". Também podemos perguntar: "O que isso revela sobre aquele que fez todas essas coisas?"
É justamente dessa percepção que surgiram, ao longo da história, os chamados argumentos clássicos para a existência de Deus.
Os argumentos clássicos para a existência de Deus
Esses argumentos não foram criados para substituir a Bíblia. Eles são tentativas de organizar racionalmente aquilo que pode ser observado na criação e mostrar que não é irracional crer na existência de Deus.
O primeiro é o argumento cosmológico. Ele parte da existência do universo e da ideia de que aquilo que começa a existir precisa de uma causa. Se o universo existe, então surge a pergunta sobre sua causa. A conclusão do argumento é que a causa de um universo tão grandioso aponta para Deus.
O segundo é o argumento teleológico. A palavra "teleológico" vem do grego telos, que significa "fim", "meta" ou "propósito". Esse argumento observa a ordem, a harmonia e o planejamento presentes no universo e pergunta se essa ordem pode ser compreendida sem a existência de uma inteligência que tenha dado propósito à criação. A ideia é que o planejamento percebido no universo aponta para um Deus inteligente e determinado.
Existe também o argumento ontológico. Ele parte da própria ideia de Deus como o ser "maior do que o qual não se pode imaginar" e procura demonstrar, a partir dessa definição, que a existência pertence necessariamente a esse ser. É um argumento diferente dos anteriores porque não começa observando diretamente a criação, mas refletindo sobre o próprio conceito de Deus.
Por fim, temos o argumento moral. Ele parte da experiência humana do certo e do errado e da percepção de que a justiça deve ser aplicada. Se existe uma realidade moral objetiva, surge a pergunta sobre sua fonte. O argumento aponta para Deus como a fonte do certo e do errado e para a realidade de um julgamento futuro.
Esses argumentos têm seu valor. Eles mostram que a fé cristã não exige o abandono da razão. Pelo contrário, procuram avaliar racionalmente aquilo que pode ser observado na realidade.
Mas existe uma distinção importante.
Esses argumentos não ocupam o lugar da revelação.
Eles podem ajudar a responder objeções intelectuais e mostrar que a crença em Deus é racionalmente coerente. Podem organizar as evidências e ajudar alguém a perceber que não existe contradição necessária entre razão e fé. Mas eles não produzem, por si mesmos, o conhecimento salvador de Deus.
Porque o problema nunca foi simplesmente a ausência de evidências.
O problema está também no coração
É aqui que a afirmação de Romanos 1 se torna especialmente importante.
Paulo diz que os homens "suprimem a verdade" pela injustiça (Romanos 1.18). Essa expressão é importante porque apresenta a incredulidade não apenas como uma questão de falta de informação, mas como uma resposta humana à verdade que foi revelada.
Segundo Paulo, aquilo que pode ser conhecido sobre Deus foi manifestado. Os atributos invisíveis de Deus são percebidos na criação. Ainda assim, os homens podem rejeitar aquilo que receberam.
A Bíblia chega a dizer que eles "se tornaram fúteis em seus raciocínios" e que "o coração insensato se obscureceu" (Romanos 1.21).
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas podem olhar para a mesma realidade e chegar a conclusões diferentes. Elas podem contemplar o mesmo universo, experimentar a mesma realidade moral e observar a mesma criação, mas interpretar essas evidências de maneiras diferentes.
O problema, portanto, não está necessariamente na quantidade de evidências.
O pecado também afeta a maneira como interpretamos a realidade.
Isso não significa que todo incrédulo seja intelectualmente incapaz, nem que todo cristão seja intelectualmente brilhante. Ao longo da história, homens extremamente inteligentes negaram a existência de Deus, enquanto pessoas de pouca instrução conheceram profundamente o Senhor. O conhecimento de Deus não depende, em primeiro lugar, de capacidade intelectual.
Paulo afirma que "o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos" (2 Coríntios 4.4). Por isso, se o problema alcança o coração humano, uma solução puramente intelectual não será suficiente.
A razão tem seu lugar. Os argumentos têm seu lugar. As evidências têm seu lugar.
Mas somente Deus pode remover a cegueira provocada pelo pecado e tornar eficaz em nós o conhecimento de sua verdade.
Deus precisa se revelar
Aqui chegamos a uma palavra que resume toda essa discussão: revelação.
Se Deus não tivesse decidido se revelar, nós não poderíamos conhecê-lo.
A criação revela sua existência e alguns aspectos de seu caráter porque Ele escolheu manifestá-los por meio dela. Mas existe um problema: o ser humano pecador pode interpretar essa revelação de maneira errada.
É por isso que precisamos das Escrituras.
A natureza testemunha acerca de Deus, mas a Palavra de Deus nos ensina a interpretar corretamente esse testemunho. O fato de existirem tantas religiões diferentes mostra como os seres humanos podem distorcer aquilo que percebem na criação.
A Bíblia, portanto, não é uma tentativa humana de descobrir Deus. Ela é a comunicação de Deus para que possamos conhecê-lo.
E essa revelação chega ao seu ponto mais alto em Jesus Cristo.
A criação revela que Deus existe.
As Escrituras revelam quem Deus é.
E Cristo revela de maneira perfeita esse Deus que decidiu se fazer conhecido.
Jesus disse: "Ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mateus 11.27).
O conhecimento de Deus nunca sobe da terra para o céu como resultado da capacidade humana. Ele desce do céu para a terra porque Deus decidiu falar.
Foi assim na criação.
Foi assim nas Escrituras.
E foi assim, de maneira perfeita, em Cristo.
Podemos realmente conhecer a Deus?
Se Deus é infinito e nós somos finitos, então surge uma nova pergunta: podemos realmente conhecer a Deus?
A resposta da Bíblia é, ao mesmo tempo, sim e não.
Não podemos conhecer Deus exaustivamente. Mas podemos conhecê-lo verdadeiramente.
Essa distinção é fundamental.
Quando a teologia fala da incompreensibilidade de Deus, não quer dizer que Deus seja completamente incompreensível, como se nada pudesse ser conhecido sobre Ele. O sentido é outro: Deus não pode ser compreendido de maneira plena ou exaustiva.
Nós somos criaturas finitas.
Deus é infinito.
Por isso, nunca poderemos chegar ao ponto em que teremos esgotado tudo aquilo que pode ser conhecido sobre Ele.
O Salmo 145 afirma que a grandeza de Deus é insondável. O Salmo 147 declara que seu entendimento não pode ser medido. Davi diz, no Salmo 139, que o conhecimento de Deus é maravilhoso demais para ele e elevado demais para que possa alcançá-lo. Depois de desenvolver sua exposição sobre o plano da redenção, Paulo não termina apresentando uma explicação que esgote todos os mistérios. Ele termina adorando:
"Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!" (Romanos 11.33).
Deus é grande demais para ser esgotado pela mente humana.
Mas isso não significa que não possamos conhecê-lo.
Conhecer verdadeiramente não é conhecer exaustivamente
Imagine que você conheça uma pessoa muito próxima. Você conhece sua voz, seu caráter, sua maneira de pensar, talvez conheça algumas de suas histórias e saiba reconhecer determinadas reações.
Você conhece essa pessoa.
Mas isso não significa que conhece tudo sobre ela.
Você não conhece cada pensamento que ela já teve, cada experiência que viveu ou tudo aquilo que ainda viverá.
O fato de seu conhecimento ser limitado não significa que seja falso.
É exatamente essa distinção que precisamos fazer quando falamos sobre Deus.
Podemos conhecer verdadeiramente aquilo que Deus revelou sobre si mesmo, ainda que jamais possamos conhecer exaustivamente tudo o que existe para ser conhecido sobre Ele.
Quando a Bíblia afirma que Deus é amor, isso é verdadeiro.
Quando afirma que Deus é santo, isso é verdadeiro.
Quando afirma que Deus é justo, eterno, sábio e bom, isso é verdadeiro.
Não precisamos conhecer tudo sobre o amor de Deus para afirmar verdadeiramente que Deus é amor. Nosso conhecimento é limitado, mas não é ilusório.
E existe algo ainda mais profundo: não conhecemos apenas informações sobre Deus. Podemos conhecer o próprio Deus.
Jesus afirmou que a vida eterna consiste em conhecer o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem Ele enviou (João 17.3). Jeremias apresenta o conhecimento de Deus como aquilo de que o ser humano deve se gloriar. Paulo fala sobre crescer no conhecimento de Deus (Colossenses 1.10).
Esse conhecimento envolve relacionamento.
Nós falamos com Deus em oração. Ele fala conosco por meio de sua Palavra. Temos comunhão com Ele. Somos chamados a nos aproximar dele.
Conhecer a Deus não significa apenas acumular informações sobre seus atributos. Significa desfrutar de um relacionamento real com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.
Nunca chegaremos ao fim
Existe algo especialmente bonito na doutrina da incompreensibilidade de Deus.
Ela significa que nunca poderemos saber demais sobre Deus.
Não existe um ponto em que possamos dizer: "Agora já conheço tudo. Não há mais nada para descobrir."
Quanto mais conhecemos a Deus, mais percebemos a grandeza daquele que estamos conhecendo.
Isso também significa que a eternidade não será entediante.
Se Deus pudesse ser completamente compreendido por uma criatura finita, chegaríamos eventualmente ao fim daquilo que poderia ser conhecido. Mas Deus é infinito, e nós continuaremos sendo criaturas.
Por isso, jamais haverá um momento em que poderemos dizer que esgotamos sua grandeza.
Sempre haverá mais para conhecer.
Sempre haverá mais para contemplar.
Sempre haverá mais motivos para agradecer e adorar.
Essa não é uma limitação triste. É uma das maiores esperanças da vida com Deus.
Paulo diz que devemos viver "crescendo no conhecimento de Deus" (Colossenses 1.10). E se isso é verdade agora, também será verdade na eternidade.
A cada novo conhecimento sobre Deus, descobriremos ainda mais razões para nos maravilhar com Ele.
Conhecer a Deus para adorá-lo
Talvez seja por isso que a pergunta "Deus existe?" não seja o ponto final da conversa.
Ela é importante. As evidências importam. A razão importa. Os argumentos filosóficos têm seu lugar. A criação testemunha. As Escrituras testemunham.
Mas o objetivo final não é simplesmente vencer uma discussão sobre a existência de Deus.
O objetivo é conhecer o Deus que se revelou.
A teologia não existe apenas para nos dar informações. O conhecimento de Deus deve nos conduzir à adoração.
Quando abrimos as Escrituras, não estamos apenas acumulando dados sobre uma divindade distante. Estamos conhecendo aquele com quem fomos chamados a viver.
A criação revela que Deus existe.
As Escrituras nos ensinam quem Ele é.
Cristo nos revela esse Deus de maneira perfeita.
E o Espírito Santo ilumina nosso entendimento para que essa revelação seja recebida.
No início, perguntamos: "Será que Deus existe?"
A Bíblia começa de uma maneira muito mais simples:
"No princípio, Deus..."
Ele já estava lá.
Antes de nossas perguntas, Ele estava lá.
Antes de nossas tentativas de compreendê-lo, Ele já havia se revelado.
E talvez a maior descoberta não seja simplesmente que podemos encontrar evidências de que Deus existe, mas que o Deus que existe decidiu se fazer conhecido.
Podemos conhecê-lo verdadeiramente.
Nunca poderemos conhecê-lo exaustivamente.
E essa história não termina quando finalmente entendemos tudo.
Ela termina quando percebemos que nunca haverá um ponto final para conhecê-lo, porque nunca haverá um final para a grandeza daquele que escolheu se revelar.
